Hermano Figueiredo é um pernambucano nascido em Campina Grande-PB , que se considera “mais alagoano que o pé de pau da praça Rayol” (referindo-se à árvore centenária localizada no bairro do Jaraguá, em Maceió). Sua história com o cinema vem desde menino, mas foi na década de 70 que iniciou um trabalho não-mercadológico com o sétima arte, organizando exibições de filmes no Cine Teatro do Parque e no Cine Art Palácio, em Recife. Embrenhou-se pelos caminhos do teatro, mas trocou-o pelo cinema. Aliás, trocou, não. A veia teatral (e a paixão pelo que faz) se revela em uma simples apresentação de filme, o que lhe valeu o adjetivo de “cineclubático-performático” no meio cinematográfico. “Queria compartilhar com outros os filmes que queria ver”, simplifica. Em 1978, no Cine Teatro do Parque, anunciou O pagador de promessas, de Anselmo Duarte, mas lá o público teve uma surpresa: era Encouraçado Potekim, de Sergei Eisenstein, proibido pela ditadura brasileira, que seria exibido.
Na década de 80, continuou sua peregrinação pelo cineclubismo, tornando-se uma das lideranças nacionais. Para ele, um filme sempre era mais do que uma projeção: era um espetáculo, uma possibilidade de ação social. O cinema itinerante invadiu grotas, vilas, favelas e bairros da periferia de cidades como Campina Grande, Maceió, Fortaleza e Natal. Hermano acabou revelando sua paixão também detrás das câmaras, em produções como São Luís Caleidoscópio, sobre a cultura popular do Maranhão; Choveu, e daí?, relatando experiências de convivência com o semi-árido alagoano e O que vale no Vale, que aborda o cooperativismo no Vale da Paraíba. Recentemente, lançou A última feira, retratando o derradeiro dia de funcionamento da histórica feira de Arapiraca, já cantada por Hermeto Pascoal. O curta, de 17 minutos, já foi premiado no Festival de São Carlos e exibido no Festival de Tiradentes.
O convite para participar do Festival de Cinema de Maceió pela então prefeita Kátia Born acabou aproximando-o ainda mais de terra, onde acabou se fixando, em 1998 (“Apesar do festival praticamente não ter existido”, denuncia). Mirante Mercado, seu penúltimo filme, é uma declaração de amor à cidade. Não uma declaração formal e simples, ressaltando suas belezas naturais, mas ao seu povo. “Existem inúmeras Bahias, São Paulos, Alagoas. Você escolhe que Estado, que País você quer ver. Eu escolhi a Alagoas de um povo forte, criativo, belo”, conta.
No filme, Hermano colhe depoimentos de pessoas que nunca chegaram a ter uma carteira de trabalho. Mirante Mercado era um nome de uma antiga linha de ônibus em Maceió, mas é também uma contraposição: mirante representa beleza, sonho; enquanto que mercado dá a idéia de trabalho, de luta pela sobrevivência. Na tela, personagens inusitados: poeta de feira, amolador de tesoura, vendedor de veneno, um carroceiro que se intitula o homem-motor-sem destino, o vendedor de amendoim que, com sua lábia peculiar vende produtos “diet, light e kuat” e diz que não “nasceu para ser mais um”. Hermano também não. E assim segue, revelando os Brasis dentro de Alagoas e dentro do próprio Brasil.








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