3 - A estética das equipes
O cinema industrial é pautado pela lógica da linha de montagem. Fotógrafo fotografa, diretor dirige, e assim por diante. O cinema pós-industrial se constitui com uma outra estética do set e das produtoras. Grupos e coletivos substituem as produtoras hierarquizadas, com pouca ou nenhuma separação entre os que pensam e os que executam.
O que temos visto nos filmes reflete novas organizações de trabalho já distantes do modelo industrial. Filmes realizados por 4 diretores, como é o caso dos dois últimos longas realizados por Guto Parente, Pedro Diógenes, Ricardo e Luiz Pretti (Estrada Para Ythaca e Os Monstros, na foto ao lado). Filmes realizados com um diretor e mais 3 diretores na equipe técnica, como é o caso de O céu sobre os Ombros, de Sérgio Borges ou de Os Residentes, de Tiago Mata Machado. Ou ainda, Desassossego - Filme das Maravilhas, coordenado por Felipe Bragança e Marina Meliande, e dirigido por 14 pessoas de diversas partes do país, uma experiência de produção colaborativa.
O mesmo acontece com as produtoras que organizam seminários para discutir cinema, estética e política, fazendo a pesquisa e a realização caminharem juntas. Em diversas partes do país existem coletivos que estão constantemente inventando formas de desierarquizar a produção, seja pelo embaralhamento das equipes, seja na relação mesmo que estabelecem com atores e personagens, em filmes como Os monstros (Guto Parente, Pedro Diógenes, Ricardo e Luiz Pretti), O céu sobre os Ombros (Sérgio Borges), Os Residentes (Tiago Mata Machado), Avenida Brasilia Formosa (Gabriel Mascaro), Morro do Céu (Gustavo Spolidoro), Pacific (Marcelo Pedroso), Estrada Para Ythaca (Guto Parente, Pedro Diógenes, Ricardo e Luiz Pretti), entre muitos outros. Explicitando, nas escrituras cinematográficas, uma importante crise de um modelo.
O desconforto com o modelo industrial é algo que está nos filmes, na organização dos sets, na dimensão processual das obras que com frequência têm rejeitado a ideia de continuidade entre projeto e produto, como na lógica industrial. Se pensarmos em alguns importantes cineastas contemporâneos, como Pedro Costa, Abbas Kiarostami, Eduardo Coutinho, Miguel Gomes, Apichatpong Weerasethakul, Jia-Zhange-ke, todos eles teriam sérios problemas para aprovar projetos e terem suas contas aceitas na grande maioria dos editais brasileiros, uma vez que trabalham o filme dentro de um processo de construção em que o projeto é composto de intenções, encontros, performances, compartilhamentos - e não de roteiro e realização, como prevê a lógica industrial.
É certo que muitos desses realizadores são fortemente vinculados à tradição do cinema moderno, assim como grande parte do que temos visto no cinema contemporâneo brasileiro; entretanto, a produção atual parece não ter a indústria ou o chamado cinema comercial como um oponente. Trata-se, antes, de uma intensidade que atravessa todas as frentes - produção, distribuição e escrituras - e que se forja distante do modelo industrial. Todas as tentativas de trazê-lo para dentro do modelo vigente - aquele em que o filme deve ser uma realização do roteiro e o diretor deve fazer, entre outras coisas, uma exposição oral do projeto diante de uma banca para captar recursos - são, antes de tudo, formas para se destruir uma parte da potência do que existe hoje. Formas de aprisionar um sistema de invenção e criação adaptado às novas condições materiais e simbólicas do mundo.
Uma das maneiras de isolar a produção contemporânea é associar o pós-industrial com o amador, sobretudo pela força que os coletivos vêm assumindo e, também, pelos frequentes falas de cineastas e produtores que fazem questão de frisar os laços afetivos que atravessam as obras e equipes. Pós-industrial não é nem amador nem um passo para a industrialização; é o cinema brasileiro contemporâneo que incorpora um tipo de trabalho diferente daquele da indústria. Quando o debate é pautado pela lógica industrial, parece haver um claro interesse em apontar para o cinema feito hoje como um cinema não profissional, feito por jovens e novatos, não percebendo, ou fechando os olhos, para uma maneira de operar a vida e o trabalho como um processo de criação e não como peça de uma engrenagem. No atual estágio do capitalismo, em que as vidas mesmo são as principais produtoras de valor, a separação entre amador e profissional passou a ser bastante tênue, interessando sobretudo àqueles que pretendem gerir e organizar as forças da multidão.
4 - O papel da Universidade
Os principais cursos de cinema do país possuem um currículo organizado em termos industriais. Pega-se o filme, divide-o em várias partes - montagem, fotografia, roteiro, direção de arte - e no final se coloca tudo junto para o produto final, o filme. Quando um cinema pós-indústrial ocupa o espaço que vem ocupando, também na universidade precisamos nos reinventar dando atenção às formas como os cineastas estão trabalhando hoje. De certa maneira, cinema e pesquisa se tornaram coisas contíguas. A Mostra de Tiradentes é um exemplo: pesquisadores, críticos e cineastas ocupam um mesmo espaço e frequentemente passam de uma função a outra. Parece ser um desafio hoje da universidade a invenção de meios para dar conta, pedagógica e politicamente, dessa forma de fazer cinema para qual não estamos preparados ainda e que vem transformando o cinema como um todo, das formas de produção até as escrituras fílmicas.
5 - Mercado
A existência desse cinema pós-industrial significa que ele estará sempre separado do mercado ou dos meios convencionais de distribuição e produção? De forma alguma; toda a política de inserção dessas obras no mercado nacional e internacional não pode ser deixada de lado. Pós-industrial não é pós-mercado. Trata-se de uma outra engenharia de produção. Um filme que ganha o Festival de Brasília, como O Céu Sobre os Ombros (foto), de Sérgio Borges, ou um filme que está no importante festival de Rotterdam, ambos estão também no mercado. Mais do que isso: não ser industrial não significa não ter possibilidades comercias, mesmo que no tradicional comércio das salas de shopping.
É certo que muitos desses filmes não alcançam seus públicos por falta de uma política que democratize o acesso às salas, uma briga histórica, importante e que continuará a ser feita. Trata-se de uma tensão no interior do mercado formal ao qual muitas dessas obras podem e devem ser incorporadas. Entretanto, não são esses espaços tradicionais que trarão valor e legitimidade para as obras. É evidente ainda que estamos diante da "obsolescência da clivagem centro-periferia típica da era fordista" (Cocco, p.73). Assim como, nesse cinema, Fortaleza, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Belo Horizonte são partes de um mesmo processo, é o próprio país que tem diante de si as condições dadas para uma presença internacional em que o Brasil não se coloca mais como mão de obra ou fornecedor de matéria-prima apenas, mas como potência da multidão que se materializa nessas obras.
6 - A presença do estado
Chegamos a um ponto crucial: a presença do estado no incentivo da atividade cinematográfica. O incentivo ao cinema pós-industrial deve ser deslocado de projetos para processos.
Não estamos diante de filmes industriais, fechados ao descontrole dos processos. Há uma velocidade de produção, uma garantia de meios já instalados e uma estética mesmo, distante dos roteiros que a indústria exige, que nos demanda novas formas de presença estatal se desejarmos potencializar essas produções, esses processos. Se na era industrial os primeiros longas precisavam de muito dinheiro para serem produzidos, hoje vemos cineastas partindo para o terceiro longa-metragem sem nunca ter tido dinheiro público. Talvez devêssemos pensar em sistemas de bolsas de produção para coletivos e grupos, para produtoras que instauram processos. Bolsas que sejam dadas a partir da produção já realizada e não da apresentação de um projeto. Temos vários exemplos de cineastas e produtoras com expressão nacional e internacional e grande circulação fora do circuito shopping. Não seria isso o suficiente para que essas produtoras recebessem financiamentos com o compromisso de entregar pelo menos um ou dois longas metragens para distribuição em TV, Programadora Brasil, abertas para downloade exibição em salas?
Muito mais do que apontar soluções, coisa que os cineastas e coletivos certamente saberão fazer com mais propriedade, o que pretendemos aqui é assinalar a existência de uma produção cinematográfica, que continuará a existir independente das ações estatais, mas que pode ser potencializada com esforços que diferem daqueles tradicionalmente coerentes com as práticas industrias. A preocupação principal com esses processos é como potencializar o que existe sem que se ofereça mais do mesmo, como potencializar uma produção que soube se inventar em meio a condições novas, longe da lógica industrial. O papel do estado hoje é potencializar o descontrole.
* Agradeço o André Brasil, a Carla Maia, o Ricardo Targino, o Fábio Andrade e o Giuseppe Cocco pelas contribuições nas atentas leituras do texto.
Referencias importantes para esse texto:
COCCO, Giuseppe. MundoBraz: O devir-mundo do Brasil e o devir-Brasil do mundo. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2009.
BOLTANSKI, Luc e CHIAPELLO, Ève. Le nouvel esprit du capitalisme. Paris: Éditions Gallimard, 1999.843p.
DELEUZE, G. Post-scriptum sobre as sociedades de controle. In Conversações. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.
LAZZARATO, Maurizio. As Revoluções do Capitalismo. Rio de Janeiro: Record. 2006.SIMONDON Gilbert. L’individuation psychique et collective. Paris: Aubier.
Fevereiro de 2011
IN:Extraído do site-http://www.revistacinetica.com.br/cinemaposindustrial.htm acessado no dia 17 de Fevereiro às 04:42hras.










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