Por Luiz Rosemberg Filho
Aprisionado entre o dinheiro e a maquininha de calcular eis no que foi transformado o cinema brasileiro: numa infinidade de espetáculos idiotas só objetivando tranqüilizar o inquietante e esperto patrocinador de polpudas maracutaias entre governo, bancos, companhias estrangeiras e redes de televisão. O hipócrita senador Marcelo Crivella não está incluindo as igrejas na Lei Rouanet? Os farsantes defensores de uma indústria de entretenimento apostam o que for no modelito de Hollywood. E isso com o “nosso” mercado todo ocupado pelo l-i-x-o dos ocupantes. Ou já não são também mais ocupantes?
Apesar disso, sólidos focos de resistência vêm do documentário “Cartola” e de “Etnografia da Amizade”, que fala sobre o delicado cinema de Paulo César Saraceni. Duas exceções bem-sucedidas infringindo a lei dos defensores do mercado para o outro. Para o inimigo, claro. Mas é onde se vai gozar hoje: no oferecimento do nosso espaço as certezas do imperialismo. Tornou-se um fiasco defender o mercado para nós. Um mercado que é nosso, e que deveria ser nosso. Não de Hollywood ou de religiões duvidosas – que acabam sendo a mesma coisa pois um depende da esperteza do outro.
Ricardo Miranda filma o cinema de Paulo César dando propriedade à poesia, ao pensamento, à oralidade e à longa amizade dos dois. Mas não é um ótimo montador que filma um cineasta, mas um diálogo afetuoso esfacelado pelo país que odeia o ser feliz. País cuja ambição política nega o ser sensível. Para o atual Brasil o bom é ser medíocre, covarde, enganador, oportunista, político sujo e honroso como inimigo de toda e qualquer contradição mais profunda. Paulo filmou o país que resistia apesar dos anos de chumbo. Ricardo filma-o num outro tempo que parece o mesmo. O país se nega a mudar e g-o-z-a com o sofrimento de todos.
O não-conformismo dos dois gesta uma multiplicidade de variações sobre o saber e o cinema, indo de Otávio de Farias a Bertolucci, passando por Lúcio Cardoso, David Neves, Gianni Amico, Nelson Pereira dos Santos, Paulo Emílio Sales Gomes, Mario Carneiro, Glauber Rocha... Não fosse suficiente a linguagem desconstruída, dançam (e Paulo dança bem) a alegria que não deixam o país viver. Ousaria até dizer que é um filme de coração, de luz, de encontros amorosos e de revoluções sufocadas. E no cinema brasileiro é o que mais se vive: mortes, traições e derrotas. No passado foi um cinema de idéias iluminadas. Hoje é um cinema burocratizado. O cinema do avestruz que esconde a cabeça e oferece o rabo numa funesta fidelidade a um mercado que nunca foi seu. E que pelo visto nunca será.
Mas não se trata de um processo de identificação de Ricardo Miranda com Paulo César Saraceni, e sim de superação moral e política do entreguismo dominante. Mas não são ou não se vendem como politólogos bodados no culto rancoroso da eterna decadência do país. A raiz do cinema de ambos passa pelo homem, como no cinema de Rosselini. Passa pelas relações, como no cinema de Antonioni. E muito pelo afeto que gesta amizades profundas. A individualização de Paulo César, como tema, é a superação do próprio personagem pois o que dá grandeza ao trabalho é o cinema como necessidade terapêutica e política, como na abertura do trabalho com Paulo numa invasão do MST. Ambos não fizeram do olhar uma falsa prática hierarquizada de acontecimentos medíocres. Acontecimentos medíocres que servem ao empobrecimento do olhar.
De “Arraial do Cabo” ao “Viajante”, Paulo César Saraceni filmou o esfacelamento de muitos e muitos sonhos, indo sempre além dos limites permitidos. O cinema de Paulo é visto por Ricardo Miranda como sendo essencialmente crítico, político, analítico e até bem-humorado, como no filme sobre a “Banda de Ipanema”. No início da sua história, cercado pelos jovens amigos do Cinema Novo. Hoje, dos poucos ainda vivos e com algum talento, a solidão que habita cada um. E o impressionante é que Ricardo não fez um cinema de recordações, e sim dando um passo à frente na condução de Paulo por múltiplos fragmentos amorosos, maiores. “Etnografia da Amizade” investe na indisciplina como linguagem. É bem mais que um documentário, é uma longa carta de amor ao cinema brasileiro.
O conteúdo flutua entre o terno discurso amoroso e as múltiplas contradições políticas do nosso tempo. O cinema-pensado de Ricardo Miranda atua fundo sobre o lado humano, contrapondo-se ao estilo superficial e chato do cinemão de mercado feito hoje para a bajulação ou lambeção do Oscar. É a vitória do sonho conservador sobre o cinema não-ilusório como queriam Brecht, Glauber e Godard. E é justamente neste contexto de zona braba que “Etnografia da Amizade” torna-se cúmplice da criação amorosa para o outro, vislumbrando a liberdade como arte numa recusa radical à cumplicidade com o mercado onde tudo se vende. Onde tudo está à venda.
Ricardo Miranda viaja na doce pessoa de Sarra, suscitando questões que nos levam a construir pedaços descontínuos da vontade do outro. Foi assim. O outro torna-se um espaço de reordenação de um sonho analisado pelo olhar rico e protetor, excessivamente, demasiadamente humano. Vê-se, então, Paulo trabalhado (quando o deixavam trabalhar), falando, pensando, dançando e imprimindo vida onde hoje só existe cansaço, traições, burocratas e idiotas surtados com o poder. O poder de bajular e contaminar o humano com a impotêncialização do nosso eterno fascismo. Ora, o que entende o poder de expressões subjetivas? O que sabe um burocrata da “consistência energética” dos sonhos? E o burocrata sonha?
A tematização do cinema não será nunca afirmativa, pois múltiplas são as motivações dos poucos cineastas talentosos, ainda vivos. A fala de um poderá ser o silêncio do outro. A razão abstrata criativa de um filme de Fábio Carvalho poderá ser a unificação do sujeito numa versão politizada no cinema-documento de Ricardo Miranda ou Isabel Lacerda. Falo aí de dimensões criativas, apaixonadas. De um conceito fundamental de conhecimento profundo. Não estou defendendo o cinema pelo cinema, mas a paixão capaz de defender a intimidade de pessoas como José Carlos Asbeg, Nina Tedesco, Alexandre Dacosta, Antônio de Andrade, Marcelo Ikeda, André Scucato... Ou seja, os jovens que estão chegando.
A tematização do cinema não será nunca afirmativa, pois múltiplas são as motivações dos poucos cineastas talentosos, ainda vivos. A fala de um poderá ser o silêncio do outro. A razão abstrata criativa de um filme de Fábio Carvalho poderá ser a unificação do sujeito numa versão politizada no cinema-documento de Ricardo Miranda ou Isabel Lacerda. Falo aí de dimensões criativas, apaixonadas. De um conceito fundamental de conhecimento profundo. Não estou defendendo o cinema pelo cinema, mas a paixão capaz de defender a intimidade de pessoas como José Carlos Asbeg, Nina Tedesco, Alexandre Dacosta, Antônio de Andrade, Marcelo Ikeda, André Scucato... Ou seja, os jovens que estão chegando.
Paulo Cesar teve a sorte de estar próximo de Joaquim Pedro, Mário Carneiro, Glauber... que, de certo modo, o ajudaram na sua formação. Talvez também seja justo dizer que a própria reflexão de Ricardo Miranda sobre o trabalho de Paulo Cesar os coloca muito além do esteticismo burocratizado do estado fascista e da TV. Ora, por que não deixam Paulo Cesar continuar filmando? O atual cinema brasileiro “vive” um fazer sem-paixão. Todos os “filmes” se parecem, e não se pagam. Raríssimos são os filmes que marcam fundo na ignorância absolutista do mercado. Que mercado? Ainda assim Ricardo faz da sua “Etnografia da Amizade” um ato de fé na interioridade do respeito e do afeto. Ambos precisam continuar filmando! Alô, alô burocratas do Ministério da Cultura, da Ancine, da Petrobras.... Cinema é coisa séria e não empreguinho público.
Fonte:http://www.viapolitica.com.br/cinema_view.php?id_cinema=48







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