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Revisitando Prénom Carmen de Jean-Luc Godar




Por Luiz Rosemberg Filho & Sindoval Aguiar, do Rio de Janeiro


Querem novas “celebridades” vindas do lixo eletrônico mixadas a Hollywood. Uma intoxicação de burrice. Qualquer idiota com cara de Barbie pode virar atriz na zona televisiva. O contrário está em Jean-Luc Godard, aos 80 anos, mais vivo e resistente do que nunca.

“Só nos descobrimos abutres/ quando estamos bem próximos/ de nós mesmos.”
J.P Ribeiro


Para Mario Alves Coutinho
Jean-Luc Godard

O que mata não é a velhice propriamente dita, mas o enterro em vida do humano, dos sonhos e do saber. Do outro lado, essa divindade idiota dos que acham que nunca vão envelhecer e morrer. Que se creem deuses da política e das novelinhas. Pior ainda, vão ou já estão na decrepitude sem terem feito nada de substancial para o ensinamento da felicidade. E sequer sabem que sempre foram velhos e idiotas. Nos permitimos achar que no vazio das “divindades” apodrece-se pior, pois não se tem nada para defender ou reconstruir como referência, afeto ou trabalho. Faltaram-lhes sonhos, poesia e beleza. Não à toa estão mortos e apodrecendo na política e na TV.
Talvez aí já seja uma leitura do atestado de óbito desta porca civilização da truculência, da Coca-Cola com pipoca, da fome e da bomba que, no fim, desaparecerá em circunstâncias banais sem significação profunda alguma. A civilização aos poucos vai assumindo e vivendo o seu suicídio entorpecedor. Uma espécie de câncer do olhar o nada: a BBB “Grazi pintou os cabelos de um tom castanho para ser a vilã Deodora de “Bom Dia, Frankestein”. O diretor geral da novela, José Luiz Villamarim, diz que se inspirou em “Kill Bill” para o visual dela.” (Em “Controle Remoto”, O Globo, de 17/10/2009). Duro de roer!
Querem novas “celebridades” vindas do lixo eletrônico mixadas a Hollywood. Uma intoxicação de burrice. Qualquer idiota com cara de Barbie e boa de bunda pode virar atriz na zona televisiva. É preciso que se reconsuma a própria m... como encenação do fascismo, como afirmação da produção e do consumo, nunca do saber e do humano. Como bem afirmava Artaud: “O corpo nunca tocou no corpo, a não ser através do ódio e não do amor.” Pois o verdadeiro desejo exacerba uma superação, tanto de Deus como do Diabo.
“Aquilo que os homens têm mais dificuldade em compreender (segundo Nietzsche), desde os tempos mais remotos até o presente, é a sua ignorância acerca deles mesmos!” Ora, envelhecer é parte de um processo destituído de sonhos, pois para frente teme-se só a morte. Só a arte não envelhece, porque está sempre recomeçando do zero. Celebrá-la de algum modo é não envelhecer, pois permite compartilhar de um longo aprendizado imunizado contra os malefícios do que a nocividade da TV julga ser a comunicação. Já a arte é um canto de poesia e liberdade. Fundamentalmente de linguagem, em seu imenso poder de perpetuar o saber, a memória e a revolução em benefício da coletividade.
Prénom Carmen, por Marushka Detmers

Sem nenhum tipo de recalque, sempre sonhamos com o fim da burocracia que prospera no universo do cinema. Caducos e decrépitos burocratas reinando entre leis, safadezas e papelotes malhados. E claro, ancorados no poder. Isso já é a morte em vida de seres enfermos e apodrecidos, oportunistas vagabundeando e sangrando o processo criativo. E ninguém se atreve a enfrentar essa decrepitude do Estado cônscio do seu fascismo. Estado impregnado de horrores com os fantasmas deixados pela ditadura. Ditadura que ainda desfruta de um certo bem-estar. Apodreceu, mas segue sendo alimentada pela política favorável, ou mesmo contra.
Ora, como admitir o fim do fascismo na velha Europa, com a direita conservadora ganhando em todos os espaços? Como, aqui, dissociá-lo de nossos muitos burocratas de plantão? Recém nascidos da nossa ditadura, estão incumbidos de prestar serviço e obediência às distribuidoras estrangeiras, às redes de televisão e aos exibidores. Usam suas forças para isso. E o cinema também se reduz a isso: lixo!
De certa forma, Prénom Carmen (Jean-Luc Godard, 1983) dialoga com os nossos demônios, e vai além nos deslumbrando com o caráter sagrado do lado sublime de uma jovem Carmen, lindíssima e sedutora. Uma personagem meio criança, mas múltipla de riquezas na imensidão de sua juventude. Claro que tem de ser desejada pelo tio cineasta enfermo, ou talvez saudável demais, num asilo a pensar um novo filme. Talvez o processo de criação hoje passe mais pelas dúvidas que pelas certezas de “filmes” televisivos como Chico Xavier, Segurança Nacional ou os Tropas das Elites, que estão chegando para estabelecer não opções, mas hierarquias militarizadas a serem aceitas como única opção possível da “verdade”. Ou seja, lixo como exaltação do dinheiro pelo dinheiro e da prostituição das ideias.
Godard, aos 80 anos, segue mais vivo que todos esses “jovens” televisivos vindos da escolinha do fascismo. A velhice para Godard não significa o fim ou o medo, e sim sua surpreendente vitalidade criativa. Fazendo de seu Carmen uma autópsia bem humorada não da velhice, mas do fascismo de bancos, empresas e religiões. No seu genial filme, ele ridiculariza o que gira em volta do cinema: a loucura! Jean-Luc já a havia mostrado em O Desprezo, e no ousadíssimo Paixão. Pelo amor de Deus, não confundir com o deus dará televisivo de “Passione”, que isenta de responsabilidade e profundidade objetiva, nos converte à decrepitude de um ancião ressentido com o cinema. Não à toa acabou o autor na TV a defender seus papagaios ineficazes a algum tipo de saber. Já o li falando que na sua videoteca não tinha nenhum Bergman, Godard ou Antonioni. Possivelmente seu processo “evolutivo” passa ou é alimentado pela m... Claro que tem de escrever novelinhas para a TV.
Já Godard se recusa a declinar e continua sem ressentimento contra os que chegam raivosos, ainda obscurecidos pela má formação familiar, religiosa e escolar. Em seu fortíssimo Prénom Carmen interpreta o seu próprio personagem, compartilha do desejo pela linda sobrinha envolvida em paixões e assaltos, além da inútil representação aristocrática de bancos, jantares, luxo e ciúmes. Sem dúvida é um dos mais belos trabalhos de Godard, que lembra os versos de Sófocles em Os Persas: “Quando se é velho, extingue-se a razão, a ação se torna inútil e vão cuidados nos ocupam.” O corpo envelhecido deixa de ser nosso para ser usado por médicos-vampiros, multinacionais, asilos e hospitais. Se queixar a quem? Quão penoso é o fim dos desejos proibidos.
Lá no passado, no velho Egito, 2500 anos antes de Cristo, o filósofo e poeta Ptah-hotep já afirmava: “Quão penoso é o fim de um ancião! Vai dia a dia enfraquecendo: a vista baixa, as orelhas se tornam surdas; a força declina; o corpo não encontra repouso, a boca se torna silenciosa e já não fala. Suas faculdades intelectuais se reduzem e torna-se impossível recordar hoje o que foi ontem. Doem-lhe todos os ossos. As ocupações a que outrora se entregava com prazer só as realiza agora com dificuldade, e desaparece o sentido do gosto. A velhice é a pior desgraça que pode acometer um homem. O nariz se obstrui e nada mais pode cheirar.”

Tudo isso para dizer que Prénom Carmen é um diálogo vivo e criativo com Humberto D, Viver, Morangos Silvestres, Os Dias Estão Contados, O Leopardo, Violência e Paixão e Recordações da Casa Amarela. Todos carregados de força, inventividade e referência rejuvenescedoras para o cinema e o lado humano da vida. Filmes sobre a velhice não como produto para este nosso mercado decrépito e devastador, mas para a fantasia do belo assimilado pelo saber e pelo humano. E se o nosso real tesouro é a vida, devemos levar nossa existência sem mágoas no caminho da luz. Luz a projetar imagens além da velhice, subjugadas pelas dores, doenças e que, de certo modo, vão nos reduzindo ao nada que é a morte. Godard felizmente ainda é um cineasta que não presta a mínima obediência à realeza e à aristocracia, ainda que decadente, dominante de Hollywood.

Godard afasta-se da ideia da morte tanto quanto possível, pois mantém sua crença na imortalidade da criação. Norbert Elias diz que: “A morte é um problema dos vivos, pois os mortos não têm problemas”. Mas para permanecer jovem, aos seus 80 anos, segue confrontando tanto a alienação como o capitalismo burocratizado, aqui deixado pela ditadura que burrificou e atrasou o país. Transcende de maneiras diversas a desumanização da comunicação armazenando e esculpindo saberes e poesia numa reinteriorização permanente de liberdade, para melhor avançar com o seu cinema, transformando-o em filosofia, pintura, poesia, música... Queiram ou não, faz um cinema em contraposição ao de Hollywood, que todos tentam imitar para justificarem a santidade de suas ignorâncias e gratuidades televisivas. Na realidade faz-se bem mais televisão do que cinema. No seu tempo (o nosso tempo), Godard fez com o cinema o que Brecht fez com o teatro: desdramatizou-o para melhor exprimir não lampejos de um saber duvidoso, mas sim um arcabouço de revolta.

Um assalto, um ensaio musical, um filme, um outro filme dentro do filme é o que estamos assistindo. Uma realidade e muitos instantes. Por ser um filme de Godard, possui muita identidade. Como aquilo que podemos definir como felicidade, um instante fora da ordem! E este filme genial é mais do que um sintagma. E por que ordená-lo? O que o filme não responde para ir além, multiplicando respostas com situações, textos, intertextos, subtextos... É a escrita imagética de Godard na superação do que a sua inventividade alcança no encontro do humano. Este ser que inventamos e que, desde então, ficou sem lugar e que pelo desejo e perda de sua identidade nesse turbilhão humano dominado pelos meios de produção,o que vai reprimindo, sucumbindo e exterminando a invenção. Vitória do grupo que animaliza pela seleção, o individualismo e o agrupamento sem identidade, no seguimento da lei e da ordem, simetrias assimétricas que consomem vidas como as inutilidades dos produtos.

Mas Godard é o cineasta da ação que anula o tempo e do antiformalismo. Obedece a um único princípio, o que define o homem em sua incontida aventura de viver: a aventura da criação e do desejo! É quando Carmen revela a que veio, o seu prénom de incontidos desejos, que definem instantes de beleza! Tudo começa quando Carmen, no início do filme, nos diz:

- Sinto ondas de desejo ao planejar algo!

E, ao revelar este princípio que rege o ser humano, o desejo, revela ainda que não deveria se chamar Carmen. Este início é puro Godard, e o começo de um fim imprevisível de mais uma obra prima. Um trabalho de ideias que desenvolvem conceitos de princípio, meio e fim; ou sem eles. Porque o mundo de Godard é o da poesia em forma de filosofia e de um pensar político num espaço sem tempo, sem lei e sem ordem como pecados. Ele estabelece o mundo e o espaço de Prénom Carmen em forma de Godard. Que, aliás, é também um grande personagem neste filme.

Nos filmes de Godard parece haver uma busca de que alguma coisa pode dar certo! E neste sentido até caberia algum paralelo com o atual e delicado filme de Woody Allen, Tudo Pode Dar Certo, porque, nos dois filmes, assistimos a princípios de linguagem e de muitos conhecimentos nessa mesma busca pela união de literatura e cinema, neste escrever com a câmera dos dois cineastas. O narrador/personagem do filme de Allen guarda muito do personagem Godard, em Prénom Carmen. Acima de tudo, conhecimento e um certo rompimento com a banalização que tomou conta do cinema, via Hollywood e a TV. Com os dois cineastas que não temem a demonização e que, com seus filmes, exorcizam-na. Revelam, por outro lado, que estamos afundados num mundo do horror, sem capacidade de reação, até mesmo para o prazer, conformados com políticos e carismáticos de terceira classe.

Prénom Carmen, filme que nos faz refletir hoje, como nunca, sobre as relações com a sociedade, nossas relações com a multidão, com suas lideranças carismáticas políticas e religiosas e com as instituições burocráticas, onde uma desgraçada força niveladora da Democracia e de “todos” impõe um único padrão: de idiotice, estupidez e perplexidade em uma ordem complacente e perigosa. A de precedência de todas as crises: econômicas, políticas, sociais e fascistas! Os exemplos são infindáveis na esquerda e na direita de um mesmo objetivo: chegar ao poder para nada mudar. Nem mesmo de lugar!

Será a humanidade, de uma razão utilitária sem sentido, será esta nossa criação? Com o poder sempre de direita ou da esquerda que responde: “ficha limpa” só interessa à sociedade, a nós não! E assim vamos fazendo política com a sujeira do poder! Nos filmes de Godard, como neste seu Prénom Carmen, o tempo é uma ficção. E temos que inventá-lo todo o tempo, para que os espaços não percam a poesia e não cedam lugar à lógica utilitária invasora até da metafísica. Jean-Luc Godard em cada filme se inova e realiza, para a grandeza do próprio cinema, um modelo de produção diferente e possível, fugindo do controle, sem deixar a história do cinema morrer e longe da história que Hollywood conta.

O cinema não é a democracia racional utilitária que, na Espanha, acaba de ser pontual pelas forças criminosas da história: Opus Dei e outras representações do capital, ao impedirem o som universal de liberdade na voz e saber do juiz Baltasar Garzón pela Espanha do passado e do presente, e que tem na voz de Godard e no corte radical de seus filmes, também um clamor universal, como força da arte.

Ninguém pode calar. E nisso Godard parece ouvir Marx, que fala alguma coisa parecida em um de seus textos. Precisamente numa introdução, ao ainda inédito entre nós, Grundrisse, ao enaltecer o valor da arte justamente pelas suas infindáveis formas de produção, diferentes das do controle que o capitalismo estabeleceu como banalização e utilitarismo. Onde o ser humano poderá ser sempre contemplado com algo novo e em forma de utopia. Quando a realidade estiver ou se encontrar como a nossa: banalizada e tão excludente. E nos levando ao êxtase, à sublimação e à perda da identidade pelo culto assustador à Barbárie! 
Fonte: http://www.viapolitica.com.br/cinema_view.php?id_cinema=264

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